Escravidão moderna em SC

Corretor que escravizou trabalhadora etíope em SC já vendeu US$ 1 bi em imóveis

Fabricio Saltini atuava em Dubai no mercado de luxo; vítima trabalhava 15 horas por dia e teve passaporte retido em Florianópolis

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  • Corretor de luxo escravizou trabalhadora etíope em Florianópolis Fabricio Saltini, que afirma ter vendido US$ 1 bilhão em imóveis em Dubai, mantinha doméstica em condições análogas à escravidão.
  • Jornadas das 7h às 22h30 sem folga e sem documentos A vítima, de 34 anos, trabalhava todos os dias no bairro Rio Tavares, acumulando limpeza, cozinha, cuidado dos filhos e dos animais.
  • Mulher fugiu sem passaporte e sem falar português No início de maio, ela escapou e denunciou retenção de documentos, violência psicológica e restrição de liberdade às autoridades.
  • MPT firma acordo com indenização de R$ 15 mil O casal reconheceu vínculo doméstico e pagará R$ 10 mil por dano moral e R$ 5 mil para custear o retorno da vítima ao país de origem.
  • Casal segue recebendo críticas nas redes sociais Usuários comentam nas publicações de Fabricio e Nour Salem. Até a publicação da matéria, o corretor não se manifestou.

Um corretor de imóveis de luxo que atuava em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, mantinha uma trabalhadora doméstica natural da Etiópia em condições análogas à escravidão em Florianópolis. Fabricio Saltini afirma ter vendido ‘mais de US$ 1 bilhão em imóveis de luxo’ e já foi citado pela revista Arabian Business como uma das ‘lendas do mercado imobiliário’.

A vítima, de 34 anos, era submetida a jornadas diárias das 7h às 22h30min, inclusive nos finais de semana. Ela ficava em um condomínio fechado no bairro Rio Tavares, no Sul da Ilha, e acumulava diversas funções: limpeza da casa, preparo de alimentos, cuidado com os filhos do casal e atenção aos animais de estimação.

Fabricio e sua esposa, Nour Salem, ostentavam nas redes sociais uma vida de luxo. Em uma publicação, o corretor aparece vinculado a um apartamento com valor superior a 21 milhões de dólares, o equivalente a R$ 104,5 milhões. Nour publicava com menos frequência, escrevendo em inglês e árabe, mostrando a rotina familiar.

Empresário que mantinha africana escravizada em Florianópolis já foi citado como "lenda do mercado imobiliário" (Foto: Reprodução, redes sociais; SIT)
Empresário que mantinha africana escravizada em Florianópolis já foi citado como “lenda do mercado imobiliário” (Foto: Reprodução, redes sociais; SIT)

Fuga e denúncia

A trabalhadora conseguiu fugir da residência de alto padrão no início de maio, sem documentos e sem falar português. Com o auxílio de ferramentas de tradução, denunciou às autoridades jornadas exaustivas, retenção de documentos, violência psicológica e restrição de liberdade.

Segundo o Ministério Público do Trabalho, ela havia sido contratada em Dubai por meio da empresa Maids Domestic Workers Services L.L.C e foi trazida ao Brasil por Fabricio e Nour sem visto regular de trabalho.

Às autoridades, a vítima relatou episódios frequentes de gritos, ameaças, insultos, intimidações e tentativas de agressão física. Os empregadores teriam retido seus documentos pessoais, incluindo o passaporte, limitando sua liberdade de locomoção.

Após a fuga, ela foi acolhida por profissionais da rede pública de segurança, saúde e assistência social. O atendimento contou com apoio do Espaço Acolher, do Escritório de Atenção ao Migrante, de intérprete intercultural e de equipe multidisciplinar.

Mesmo após deixar a residência, a mulher continuou recebendo mensagens intimidatórias dos empregadores, incluindo acusações falsas de furto de um cachorro. Segundo a trabalhadora, o casal condicionava a devolução de documentos e pertences ao pagamento de supostas dívidas referentes a passagens aéreas, alimentação e emissão de visto.

Nour Salem e Fabricio Saltini (Foto: Redes sociais, Reprodução)
Nour Salem e Fabricio Saltini (Foto: Redes sociais, Reprodução)

Acordo de R$ 15 mil

Na quinta-feira (21), o Ministério Público do Trabalho em Santa Catarina firmou um Termo de Ajuste de Conduta com a família. O casal reconheceu o vínculo de emprego doméstico entre 13 de março e 8 de maio de 2026 e assumiu obrigações como registro formal do contrato, recolhimento de encargos sociais e cumprimento das normas relativas a jornada, descanso, salários, férias e FGTS.

O acordo prevê R$ 10 mil de indenização por dano moral individual à trabalhadora e R$ 5 mil para custear integralmente o retorno ao país de origem, valor que inclui passagem aérea, transporte, alimentação e hospedagem. Há ainda R$ 500 para despesas de viagem.

Em caso de descumprimento, o casal terá de pagar multa de R$ 1 mil por dia pelo não pagamento da indenização e R$ 3 mil por cláusula descumprida nas demais obrigações.

Nour Salem (Foto: Redes sociais, Reprodução)
Nour Salem (Foto: Redes sociais, Reprodução)

Repercussão nas redes

Desde que o caso foi revelado, na quinta-feira (21), usuários passaram a deixar comentários nas publicações do casal, como ‘Escravizar pessoas é crime’ e ‘É verdade que você estava escravizando um mulher na sua própria casa?’.

O NSC Total tentou contato com Fabricio em busca de posicionamento, mas não obteve resposta até a publicação da matéria. A defesa do casal não foi localizada.


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